Você é imodesta por usar calças?

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Se você tem alguma frequência nos meios católicos da internet, principalmente se você for mulher, pode ser que você já tenha se deparado com outras mulheres colocando em dúvida a bem-aventurança de uma beata da Igreja, pelo simples fato de, em vida, ela ter usado calças. Eu já. E sob uma acusação bastante temerária: “ela não era modesta”.

Para algumas personalidades da internet, basta que surjam as palavras mulher+calças na mesma frase, para que a conclusão não possa ser outra além de: imodesta! Apesar de a maioria dessas pessoas fazerem o apelo à autoridade dizendo que “é a Igreja que ensina assim”, vamos ver que essa não é a atitude ou a posição da Igreja Católica.

Gosto do exemplo acima para evidenciar o extremo que algumas defesas apaixonadas de regras assumem, e como isso pode ser prejudicial para uma fé sadia e equilibrada, além não encontrar respaldo nos ensinos da Igreja.

Não é novidade que existem intermináveis discussões e especulações em torno dessa palavra, tão repetida quanto mal entendida e propagada: Modéstia. Muitas devem torcer o nariz quando lêem, já que a palavra logo remete à ideia de grupinhos de mulheres rudes e legalistas, emitindo sentenças contra qualquer coisa que esteja fora de suas próprias regras. Parece familiar?

Definições importantes

A Modéstia trata-se de uma Virtude Humana (ou Moral), procedente da Virtude Cardeal da Temperança, que veremos mais à frente. De modo geral, anterior à separação entre Cardeais e Humanas, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, a Virtude é “uma disposição habitual e firme para fazer o bem.” (CIC, § 1833).

A partir dessa definição geral, procedamos a ver qual a relação entre Virtudes Cardeais e suas filhas, as Virtudes Humanas, o que também é explicado no Catecismo.

Em se tratando de Virtudes Cardeais:

“Há quatro virtudes que desempenham um papel de charneira. Por isso, se chamam «cardeais»; todas as outras se agrupam em torno delas. São: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.” (CIC, § 1805)

Dessa forma, as Virtudes Cardeais (assim chamadas por serem quatro como são quatro os pontos cardeais principais: norte, sul, leste e oeste), se estendem sobre e dão origem a todas as Virtudes Humanas. E quando se trata dessas últimas, o Catecismo diz:

“As virtudes humanas são atitudes firmes, disposições estáveis, perfeições habituais da inteligência e da vontade, que regulam os nossos atos, ordenam as nossas paixões e guiam o nosso procedimento segundo a razão e a fé.” (CIC, § 1804)

Aqui fica claro que as Virtudes Humanas (ou Morais) só acontecem a partir da disposição, empenho, hábito e vontade ativos e cotidianos do ser humano na prática do bem. Elas procedem do esforço pessoal que, trabalhando em cooperação com Deus, leva o ser humano a desenvolvê-las. Elas não nascem miraculosamente nas nossas almas. Adiante, no mesmo parágrafo e em outras palavras, a Igreja vai dizer que “as virtudes morais são humanamente adquiridas”.

Passando adiante

Por que essas definições são importantes? Bom, se você procurar no Catecismo da Igreja algo relacionado à Virtude da Modéstia, você será direcionada antes à seção que trata das Virtudes de forma geral, para entender o que são, e depois ao parágrafo que trata da Virtude da Temperança. E por que? Porque a Modéstia é uma Virtude humana que procede da Temperança, uma Virtude Cardeal, que consiste em moderar nossas ações e paixões.

De acordo com o Catecismo:

 “A temperança é a virtude moral que modera a atração dos prazeres e proporciona o equilíbrio no uso dos bens criados.  Assegura o domínio da vontade sobre os instintos e mantém os desejos nos limites da honestidade.” (CIC, § 1809)

Ou, ainda, de acordo com São Tomás de Aquino, a Temperança:

“Indica aquela moderação ou comedimento imposto pela razão às ações e paixões humanas.” (Apud FAUS, 2014).

O resultado dessa Virtude em uma alma é um ser humano temperado (ou moderado), que é é capaz de orientar para o bem suas inclinações, interiores e exteriores, ou, ainda de acordo com a Igreja, é um indivíduo que “guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração” (CIC, § 1809) . Guarde bem esse trecho, pois será de extrema importância adiante.

A moderação é o princípio da modéstia

Aqui voltamos ao centro da discussão. Como Virtude, e Virtude Humana, a Modéstia é uma disposição para o bem aplicável a seres humanos. Matérias inanimadas não possuem disposições ou inclinações. É importante que isso fique claro.

Uma vez que a Temperança trata da moderação, a Modéstia, procedente dela, reúne e aplica à vida humana a moderação nas mais diversas atividades concernentes a ela: no comportamento, no modo de falar, na aquisição de bens e também na forma de se vestir. A modéstia é uma disposição interior adquirida pela sujeição da vontade à força da razão, que por sua vez a orienta ao bem, e em um de seus inúmeros aspectos modera a forma como nos vestimos. A moderação é contrário do excesso.

Se a Temperança também modera a forma como nos vestimos por meio da Modéstia, o que isso significa?  Aqui nós voltamos ao trecho do parágrafo 1809 do Catecismo da Igreja Católica, que destaquei anteriormente, onde é dito que um ser humano temperado é aquele que atingiu a capacidade de ser moderado, discreto e não se guiar pelas paixões do coração nas suas escolhas. Temos aqui uma chave muito importante para entender a modéstia em um dos seus aspectos mais mal-entendido e ensinado.

De acordo com C.S. Lewis, que notou isso ainda no século XX, a moderação na forma de se vestir tem sido erroneamente utilizada como sinônimo de Castidade, muito embora as duas virtudes (Castidade e Modéstia) possuam definições diferentes, que se relacionam é verdade, mas que ainda são diferentes. Quando isso aconteceu, passou-se necessariamente a associar a ideia de depravação, impureza, e todos os substantivos que sejam contrários à Castidade para se referir à pouca ou nenhuma moderação na hora de se vestir, o que obviamente é um erro, uma vez que a Castidade não trata da moderação no proceder do homem, mas da retificação de seus desejos sexuais. Vou repetir: a Castidade e a Modéstia se relacionam de várias formas, mas não são a mesma coisa. Atualmente, quando se fala de Modéstia, a reação natural das pessoas que caem nesse erro é apelar à ideia de Castidade para dizer que talvez tal roupa não deveria ser usada, quando na verdade elas querem dizer que talvez aquela roupa seja excessivamente demais ou de menos, contrária à moderação.

Esse é um dos erros mais perceptíveis nos adeptos do extremo que atribuem às moças que usam calças a pecha de imodestas, ao mesmo tempo que associam a elas os vícios contrários à Castidade e não à Modéstia (o que acontece por erros anteriores, que caberiam em outra discussão). Sabendo, então, que as duas não são a mesma coisa, e já tendo discutido nos parágrafos anteriores o que a Igreja entende por Temperança e sua filha, Modéstia, retornamos à pergunta que dá título a esse artigo.

Você é imodesta por usar calças?

Eu não sei. Assim como eu não sei se alguém bebe vinho porque quer ficar bêbado. Mas podemos descobrir.

Ao escolher uma calça para vestir ou comprar, você é guiada por qual delas é mais colada, deixa o seu bumbum maior, mais contornado e mais exposto?

Quando você veste uma calça, você pensa no quão sensual você ficará nela e quantos olhares atrairá na rua?

Você pensa em mostrar o seu corpo o máximo possível ao vestir uma calça?

Se a resposta para alguma dessas perguntas for sim, a disposição para o bem (que é o que define a Virtude) está, na verdade, sendo uma disposição para o mal, e o que está sendo praticado é o vício contrário Temperança. A Teologia Moral da Igreja ensina que revelar as partes pudendas do nosso corpo indiscriminada e deliberadamente é pecado grave. Lembre-se de que um ser humano temperado “guarda uma sã discrição e não se deixa arrastar pelas paixões do coração” (CIC 1809). Duas perguntas cabem aqui, então: você está sendo discreta ao vestir-se dessa forma? O que te motiva a fazê-lo? O desejo de ser olhada com desejo por homens? Se sim, você está dirigindo suas decisões pelas paixões (más inclinações) do seu coração, e discrição não é algo que você está procurando. E com segurança você poderia determinar que está sendo imodesta, na medida em que não está a praticar a Temperança ou a moderação na hora de escolher suas roupas.

As mesmas perguntas podem e devem ser feitas no sentido inverso:

Ao escolher uma calça para vestir ou comprar você é guiada por qual delas menos revela o seu bumbum e outras partes pudendas do seu corpo?

Quando você veste uma calça, você se preocupa em observar se ela não expõe de forma exagerada o seu corpo e escolhe algo que sabe que não chamará a atenção das pessoas na rua?

Você se preocupa em não usar calças que façam atrair a atenção das pessoas pelos motivos errados (cobiça)?

Se a resposta para uma dessas perguntas for sim, provavelmente as respostas para as outras também serão. E então, quem teria autonomia para acusá-la de ser imodesta quando você está a se preocupar com a sã discrição exigida pela virtude, e não está a escolher suas roupas influenciada pelas paixões do seu coração? Ninguém poderia, e se o fizesse estaria pecando pela emissão de juízo temerário, o que certamente não é problema seu. Volte sua atenção, mais uma vez, para a diretriz geral que você precisa para julgar sua intenções e não ser feita escrava de jugos que outras pessoas colocam sobre as suas costas.

Tudo o que trata e envolve a Virtude da Temperança sempre vai nos direcionar a apelar às nossa consciência. Moderar as nossas ações é produto de reflexões extremamente pessoais, auxiliadas pela graça de Deus, para chegarmos ao conhecimento do que está a nos mover: o nosso desejo pelo bem ou as nossas más inclinações. O primeiro é o princípio da Temperança e consequentemente da Modéstia; o segundo o princípio da intemperança e consequentemente da imodéstia, e nenhum é algo que pode ser estabelecido por terceiros. Todo bom cristão deve ter uma consciência bem formada, para que seja capaz de fazer tais distinções.

Não estou advogando aqui em favor de uma ou outra forma de vestir, e nem entrarei nesse mérito. Acaso alguém saia por aí dizendo que estou aconselhando mulheres a se vestirem assim ou assado, gostaria de lembrar que nosso papel não é estabelecer um cânon de roupas, esse definitivamente não é o nosso papel. Além disso, mentir é pecado mortal. A única conclusão a que chego aqui é a de que é impossível determinar se alguém é imodesta apenas por usar calças. A menos que você pergunte e escute uma resposta sincera de quem a usa, ou a menos que você seja onisciente como Deus é, uma acusação dessa natureza, pelo fato isolado de ter uma calça vestida em seu corpo, seria um atentado contra a caridade, e talvez até contra a verdade, se o seu juízo a respeito do outro estiver errado.

Nós encontramos todos os dias as opiniões de sacerdotes, estudiosos e leigos da Igreja sobre o assunto, encontramos interpretações de pessoas sobre os escritos de Santos Católicos, e muito provavelmente todos o fazem com a louvável intenção de ajudá-la. Ótimo! Deixe-se ser orientada. Nada disso exclui, no entanto, a necessidade de ir por si mesma direto ao que é dito pela Igreja e pelos Santos que escreveram algo sobre essa matéria, para perceber que muitas (quando não a maioria) coisas ensinadas na internet, com caráter de “palavra final” sobre o assunto, não têm absolutamente nada a ver com o que é dito por um ou por outro, ou que são citadas de maneira completamente equivocada e com significado distorcido o suficiente para caberem nas narrativas pessoais. Fuja de quem tenta subjugá-la a regras nessa matéria, porque a Igreja Católica não o faz, e nem nomeia encarregados de fazê-lo.

Habitue-se a ter contato com o que a Igreja oferece a nós. Para a maioria dos assuntos a Igreja não tem uma cartilha ou um código de regras, mas diretrizes, que servem para formar as consciências e nos fazer capazes de tomar decisões de acordo com ela, ao invés de nos tornarmos repetidoras, obedecendo e reproduzindo regras que não vêm dela.

Ponto de vista de quem vos escreve

Baseada no que diz o Catecismo da Igreja Católica, penso que se você conhece melhor do que os juízes de internet as motivações e necessidades válidas que te levam a vestir de uma forma ou de outra, se você se orienta com bons sacerdotes e bons católicos, tem boa vida de oração, frequenta os sacramentos de maneira digna, forma-se com boas leituras (indo direto à fonte, e não ao que disseram que elas dizem), tem uma boa consciência formada, entende que diante de Deus existem coisas reprováveis como a sensualidade e a sedução indiscriminada, você sabe com facilidade distinguir se você está sendo imodesta ou não por usar calças, a partir motivações e escolhas que faz ao utilizá-las. Aliás, se você tem a graça de ter tudo isso em sua vida, suspeito que seja madura o suficiente para saber não só isso, mas para identificar o abuso e a falta de equilíbrio em pessoas que tentam exercer controle sobre você a partir de regras criadas por elas mesmas.

Na verdade, é sintomática essa suposta preocupação que, de repente, algumas pessoas e grupos assumem com uma Virtude específica, quando possuem compreensão muito rasa do seu sentido. Isolam-na para, a partir dela, olhar para todas as outras coisas. Pode ser frustrante para muita gente, mas existe no Cristianismo uma série de outras coisas anteriores a uma Virtude Moral isolada, coisas para as quais uma maioria bem grande das pessoas não se atina, e continua a viver como se estivesse tudo bem demais.

Uma regra de ouro das Virtudes é o fato de que se você precisa fazer alarde delas para todos, o tempo todo, você está longe de tê-las, ainda que você acredite com toda sua força que uma roupa mudará essa situação.  Só mudará na sua cabeca, a realidade continuará a mesma.

Lewis, no mesmo ensaio citado anteriormente, vai dizer que o Diabo sempre envia os erros ao mundo aos pares. Ele envia ao mundo o vício contrário às Virtudes e envia junto a falsa Virtude, o orgulho mascarado de Virtude, pois de acordo com ele, nada melhor para o Diabo do que ajudar as pessoas a superarem a falta de uma Virtude quando, em troca, pode gerar nelas o pior dos pecados: o orgulho.

Tenho notado que todo o alvoroço em torno da Virtude da Midéstia acontece por uma tendência crescente em dominar e manter sob controle pessoas ao redor, mas isso é assunto para outro momento. Ao evangelizar outras mulheres, optar por um estilo mais brando e informativo, e menos legalista, leva-nos a atingir as consciências com muito mais efeito. O legalismo só é bom, na verdade, para afastar da Igreja moças que poderiam produzir muitos frutos para ela.

Discussões Paralelas

Existem inúmeras outras discussões sobre calças no guarda-roupa feminino, enquanto lê, você pode se perguntar: Tá, mas será que a calça é a peça mais feminina? Será que é a mais apropriada para algumas ocasiões? Mas ela não foi incorporada ao guarda-roupa feminino depois da revolução industrial? A calça é roupa de homem? O fator cultural permite o uso de calças por mulheres ocidentais?

São ótimas perguntas, mas que se tratam de outros assuntos, totalmente independentes do que está sendo abordado aqui nesse momento e muito mais extensas. Muitas delas são desmistificadas em conteúdos de relevância para se ler quando se quer entender melhor sobre essa matéria. Se você se interessar por ler mais sobre cada uma delas, penso que, pra começar, dois artigos são indispensáveis:

Um deles é um dos artigos mais completos em português, escrito pela Aline Brodbeck, com a perspectiva Católica para todas essas questões, a partir de uma sólida bibliografia. Você pode acessá-lo clicando aqui.

Caso você leia em inglês, recomendo a leitura do artigo “Dress”, da autora Doreen Yarwood, escritora e palestrante com publicações na área de arte e desenvolvimento do modo de se vestir no mundo ocidental. O artigo trata sobre a história, o propósito e a natureza das vestes, bem como sobre forma de se vestir nas diferentes sociedades desde a antiguidade, e as mudanças graduais que ocorreram naturalmente ao longo dos séculos em todas elas. Você pode acessá-lo clicando aqui.

Fique com Deus!

Referências

CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 1a ed. Vaticano, 1992. Disponível em: <http://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/prima-pagina-cic_po.html&gt;.

FAUS, F. Moderação. Fé, Verdade e Caridade. [S.I]. 2014. Disponível em:  <https://www.padrefaus.org/2014/02/03/moderacao/&gt;.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Edição especial. Rio de Janeiro: Vida Melhor Editora, 2017. Livro III, cap. 2, p. 113-119.

BRODBECK, A.R. Pode a mulher cristã usar calças?. Femina, Modéstia e Elegância. [S.I]. 2014. Disponível em: <http://www.blogfemina.com/2014/05/pode-mulher-crista-usar-calcas.html&gt;.

YARWOOD, D.; de Marly, D.J.A.; LAVER, J.; MURRAY, A.W.; SIMMONS, P. Dress. Encyclopaedia Britannica. [S.I.]. 1998. Disponível em: <https://www.britannica.com/topic/dress-clothing&gt;.

 

 

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3 comentários sobre “Você é imodesta por usar calças?

  1. Texto maravilhoso! Tenho certeza que vai ser útil pra muitas mulheres como foi pra mim. Já me senti muitas vezes “culpada” em usar calça pra ir pra faculdade, por exemplo, e agora percebi(confirmei) que isso foi bobagem. Obrigada! Deus abençoe vocês!

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