Resistir aos desejos humanos naturais? A moral sexual cristã por C. S. Lewis

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Existe um ensaio escrito por Clive Staples Lewis traduzido como “Moralidade sexual”, publicado no livro Cristianismo puro e simples em 1952, obra que surgiu a partir de palestras que dera à BBC durante a Segunda Guerra Mundial. O objetivo de suas palestras naquele momento catastrófico e cruel para a Europa era explicar de maneira compreensível aos nãos cristãos os principais pontos do Cristianismo, e oferecer ao seu povo a esperança de Cristo para tempos duros.

No ensaio sobre a moralidade sexual cristã, através de suas metáforas bem humoradas e certeiras, Lewis passa por vários pontos importantes dentro do que o Cristianismo ensina como a boa conduta do homem quando se trata de sua sexualidade. Ele inicia por esclarecer do que se trata a castidade; a finalidade do sexo de acordo com o Cristianismo; o desvio de sua finalidade na sociedade; a imoralidade de métodos contraceptivos; e passa, de maneira brilhante, pelo ponto alvo desse artigo: o apelo feito, pela sociedade pagã, de que deveríamos nos render aos nossos instintos sexuais, pois são instintos naturais do homem.

Lewis escreve:

“Todos sabem que o apetite sexual, como qualquer outro apetite, cresce quando é satisfeito.”

Um dia esse ensaio caiu um meu coração como semente em terra fértil, brotou, floriu e mudou completamente  o meu relacionamento com a frustração de me ver obrigada a lutar contra meus instintos sexuais que me pareciam tão naturais e saudáveis. Amacie a terra do seu coração e aprecie em sua alma essas palavras de ajuda e amor. A castidade vale a pena, e por Deus todos somos capacitadas a alcançá-la.

 

AS MENTIRAS CONTADAS SOBRE O SEXO

A partir desse ponto, Lewis se dedica a identificar e desmantelar as mentiras propagadas por uma sociedade secularizada a respeito do sexo:

1- “O sexo se tornou um problema porque se deixou de falar dele.”

Lewis:

Nos últimos vinte anos não foi isso que aconteceu. Todo dia se fala sobre o assunto, mas ele continua sendo um problema. Se o silêncio fosse a causa do problema, a conversa seria a solução. Mas não foi. Acho que é exatamente o contrário. Acredito que a raça humana só passou a tratar do tema com discrição porque ele já tinha se tornado um problema.

2- “O Cristianismo julga o sexo, o corpo e o prazer como coisas intrisecamente más.”

Lewis:

“O Cristianismo é, praticamente, a única entre as grandes religiões que aprova completamente o corpo – que acredita que a matéria é uma coisa boa, que o próprio Deus tomou a forma humana e que um novo tipo de corpo nos será dado no paraíso e será parte essencial da nossa felicidade, beleza e energia. O Cristianismo exaltou o casamento mais que qualquer outra religião; e quase todos os grandes poemas de amor foram compostos por cristãos. Se alguém disser que o sexo, em si, é algo mau, o Cristianismo refuta essa afirmativa instantaneamente.”

O autor continua, numa linha de raciocínio um pouco extensa, resumida aqui, sobre a afirmação de que não deveríamos nos envergonhar do sexo e do fato de temos instintos sexuais. O autor ressalta que, de fato, não existem motivos para se envergonhar do sexo em si, mas existem todos os motivos para se envergonhar do que foi feito dele, e explica numa analogia.

Lewis:

“Não há nada de vergonhoso em apreciar o alimento, mas deveríamos nos cobrir de vergonha se metade das pessoas fizesse do alimento o maior interesse de suas vidas e passasse os dias a espiar figuras de pratos, com água na boca e estalando os lábios.”

3- “Mas o desejo sexual é natural, não deveríamos resistir à nossa natureza.”

Lewis:

“Essa associação é uma mentira. Como toda mentira poderosa, é baseada em uma verdade, a verdade de que o sexo, em si mesmo, é normal e saudável. A mentira consiste em sugerir que qualquer ato sexual que você se sinta tentado a desempenhar, a qualquer momento, seja também saudável e normal. Isso é estapafúrdio, sob qualquer ponto de vista concebível, mesmo sem levar em conta o Cristianismo. A submissão a todos os nossos desejos obviamente leva à impotência, à doença, à inveja, à mentira, à dissimulação, a tudo, enfim, que é contrário à saúde, ao bom humor e à franqueza. Para qualquer tipo de felicidade, mesmo nesse mundo, é necessário comedimento. Logo, a afirmação de que qualquer desejo é saudável e razoável só porque é forte, não significa nada. Todo homem são e civilizado deve ter um conjunto de princípio pelos quais rejeita alguns desejos e admite outros. Um homem se baseia em princípios cristãos, outro se baseia em princípios de higiene, e outro, ainda em princípios sociológicos. O verdadeiro conflito não é do Cristianismo contra a natureza, mas do princípio cristão contra outros tipos de princípios de controle da natureza. A natureza terá de ser controlada de um jeito ou de outro, a menos que queiramos arruinar toda nossa vida.”

OUTRAS CONSIDERAÇÕES

O ensaio sobre a moralidade sexual cristã de Lewis é relativamente extenso, e às vezes com sentenças complexas e que pedem mais tempo e releituras para correta compreesnão. Na sequência o autor comenta que, de fato, os princípios cristãos são mais rígidos do que outros, mas que, para eles, contamos com uma ajuda com a qual não contamos em nenhum outro: a ajuda de Deus. Muitas pessoas nem sequer tentam ser castas, por acharem impossível, para essa ideia, Lewis responde que para tentar algo não se deve pensar na sua impossibilidade ou possibilidade.

“Em face de uma pergunta optativa em uma prova, a pessoa deve pensar se é capaz de respondê-la ou não; em face de uma pergunta obrigatória, a pessoa deve fazer o melhor que puder. Você poderá somar alguns pontos mesmo com uma resposta imperfeita, mas não somará pontos casa se abstenha de responder.

[…]

O homem é capaz de prodígios quando se vê obrigado a fazê-los. Podemos ter certeza de que a castidade perfeita  -assim como a caridade perfeita-  não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a necessária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para começar de novo. Por mais importante que seja a castidade, esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprendemos, por um lado, que não podemos confiar em nós nem em nossos melhores momentos; e, por outro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única atitude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.”

 

 

 


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