Por que estás abatida, ó minh’alma? – Uma conversa honesta sobre depressão

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De acordo com o Instituto Nacional de Saúde Mental dos Estados Unidos existem pelo menos 5 tipos diferentes de depressão, todas de relevância clínica e necessitadas de atenção profissional especializada. Embora as causas da depressão não estejam ainda completamente elucidadas pela ciência, uma teoria bem aceita fala sobre o desbalanço de algumas substâncias químicas produzidas pelo cérebro, relacionadas com o bem-estar. Algumas evidências mostram ainda que condições médicas como disfunções da glândula tereóide, câncer, problemas cardíacos e dores crônicas também estão relacionadas com desenvolvimento de depressão. A ciência diz que o ser humano pode ser afetado pela depressão ainda nos seus primeiros meses de vida, na juventude e na velhice. (1)

E por que estas informações tão técnicas? Para percebermos que a ideia de que “depressão é falta de Deus” não é verdadeira. Apesar de tantas informações científicas e profissionais disponíveis, essa ideia ainda é repetida à revelia por cristãos que não querem ou não sabem como ajudar alguém passando por uma depressão, ou que se utilizam dessa ideia para diminuir ou desacreditar a realidade do outro.

Portanto  não vou partir do pressuposto de que se você buscar a mais Deus, se você rezar mais, sua depressão será curada. Não tenho dúvidas de que Deus pode curar qualquer coisa, incluindo a depressão, porém nem eu e nenhuma pessoa pode afirmar que esse é o plano dele a respeito de todos. Deus pode curar, mas também pode nos deixar viver a vida inteira com algo, a fim de nos ensinar coisas que só Ele pode dizer o que são. Daí a ideia de que não entendemos muitos dos planos de Deus, mas viveremos, apesar da nossa condição, da melhor maneira possível. Jesus morreu para que tivéssemos vida em abundância. É importante que vivamos com a esperança da cura miraculosa, e ao mesmo tempo conscientes de que Deus pode ter outros planos.

É indispensável que qualquer pessoa vivendo quadros persistentes de tristeza, angústia, perda de interesse por coisas que gosta, desinteresse pela vida, alterações drásticas no sono e apetite, procure por ajuda médica/psicológica sem hesitar, e que qualquer pessoa já diagnosticada com transtorno depressivo procure por tratamento com profissionais. As principais abordagens atualmente para o tratamento são a psicoterapia e os medicamentos. Quanto mais cedo se inicia a atenção e cuidado de um paciente com depressão, maior a possibilidade de remissão dos sintomas e de amenizar o sofrimento mental que a doença causa.

Tendo já discutido, então, que depressão NÃO É falta de Deus, e o papel fundamental da ajuda profissional, quero conversar com você sobre a perspectiva sobrenatural do sofrimento e como a fé pode ajudar muito. Em alguns casos, seja por limitação financeira ou outro motivo, muitas pessoas não conseguirão procurar por ajuda profissional, e ainda que consigam, a fé tem demonstrado ter um papel estratégico e importante na remissão dos sintomas incapacitantes da depressão.

Na bíblia existem exemplos de pessoas que podem ter passado por uma depressão:

  • O grande profeta Elias implora ao Senhor a morte. (1Reis 19, 4)
  • Davi repetidas vezes revela nos salmos a profunda tristeza e aflição persistentes de sua alma. ( Salmos 6, 4;  13, 2-3;  42, 6)
  • Jeremias amaldiçoa o dia em que nasceu. ( Jeremias 20, 14)
  • Jó desejou ter morrido no ventre da mãe. ( Jó 3, 11)

Para todos eles, Deus se manteve próximo. E de cada um é possível extrair lições sobrenaturais preciosas para vidas que carregam o fardo pesado da depressão.

1. Deus conforta os que sofrem e dá sentido ao sofrimento – Elias

Deus vem a Elias, como diz a bíblia, no “murmúrio de uma brisa suave” (1Rs 19, 12), dando-lhe o conforto de sua presença. É importante notar aqui a sensibilidade de Deus: a bíblia diz que antes da brisa suave, vieram fogo impetuoso, um terremoto e um forte vento, mas Deus não estava em nenhum deles. Ao vir até Elias na forma de uma brisa suave, Deus parece dizer: “tudo está bem, Eu sou um Deus sensível à sua dor, em mim você encontra paz, calma e descanso para os seus fardos”. O curioso é que Deus pergunta a Elias “O que fazes aqui?”, dando-lhe espaço e tempo para falar com Ele sobre a dor aguda em sua alma. Deus ouve Elias com sincero interesse em sua dor, e em seguida ordena: “vai e volta por teu caminho rumo ao deserto”, onde Elias deveria ungir o Rei de Israel. Ou seja, não necessariamente Deus vai nos poupar do sofrimento, pois o sofrimento nos transforma em pessoas mais parecidas com Ele. Deus não nos poupa de caminhar pelo deserto, mas Ele nos assegura de que nele teremos forças para passar pelo vale escuro, onde há dor mas há também reis para serem ungidos pelas mãos de seu servo: há um propósito lá. No Deus de Israel, o sofrimento não é em vão.

A bíblia nos diz para chorar com os que choram (Romanos 12, 15) e não para avaliar os que choram para saber se sua dor é real ou não. Ao ver a profunda tristeza e desespero de Elias, Deus não o examina, Ele o conforta, ele valida sua dor.

2. Persistência em meio ao sofrimento – Davi

Davi foi perseguido por Saul durante OITO anos. Por oito anos Davi viveu angustiado, aflito, desesperado. Em meio à fuga, Davi se escondeu em um campo, nas montanhas, em cavernas, na casa de estranhos… foram tantos lugares e tanto tempo, fugindo de quem “o odiava sem motivo” (Salmo 69, 5). Davi é descrito pela bíblia, no início do primeiro livro de Samuel como alguém de bela aparência e vivaz. É o mesmo davi que em outros tempos derrotara um gigante com um estilingue, que agora escreve sobre a profunda tristeza e desânimo de sua alma.

Cansei-me de gritar, minha voz ficou rouca, meus olhos se consomem à espera do meu Deus. (Salmo 69, 4)

Até quando na minha alma experimentarei aflições, tristeza no coração a toda hora? (Salmo 13, 3)

Minha alma está aflita ao extremo. Mas tu, Senhor, até quando? Meu gemido me faz desfalecer, inundo de pranto o meu catre toda noite e banho de lágrimas o meu leito. (Salmo 6, 4 e 7).

Nesse e em inúmeros outros versos, Davi deixa claro todo o desespero, desânimo, profunda tristeza que o faz desfalecer, e nada parece livrá-lo delas.

Mas é no mesmo livro que vemos Davi declarar sua confiança e esperança no Senhor, certo de que Ele não o havia abandonado, apesar de todas as circunstâncias apontarem para o contrário:

Mas eu confiei na tua misericórdia. Alegre-se meu coração na tua salvação e cante ao senhor, pelo bem que me fez. (Salmo 13, 6)

As promessas do Senhor são sinceras, como prata refinada, sete vezes depurada. Tu, Senhor, nos proteges. (Salmo 12, 7-8)

Agora sei que o Senhor salva seu consagrado; respondeu-lhe do seu santo céu, com a força vitoriosa de sua mão direita. (Salmo 20, 7)

Por que está abatida, ó minh’alma e se perturbas dentro de mim? Espera em Deus, ainda poderei louvá-lo, a Ele, que é a salvação do meu rosto e meu Deus. (Salmo 42, 6)

Após oito anos de fuga, Davi age com misericóridia para com Saul, conquistando seu favor e sendo liberto da perseguição. Durante aqueles anos em que sofreu a angústia do medo, e experimentou a profunda tristeza humana, Davi viveu a dor crua, lamentou muitas vezes, chorou um choro amargo, mas terminou cada um de seus salmos afirmando a esperança no Deus de Israel, pregando para si mesmo sobre o seu amor, lançando para longe todas as dúvidas sobre Deus. Davi persistiu, sem saber o que aconteceria com ele no fim, se algum dia toda aquela angústia acabaria, se ele seria liberto do fardo do medo e da aflição. A lição de Davi é que é possível passar pela tristeza, pela angústia, viver a dor mais aguda, externar tudo isso em lágrimas, lamentos,  e continuar ESPERANDO, CONFIANDO, CONFIRMANDO, PREGANDO PARA SI MESMO que Deus é Bom, Protetor, Fiel, Amável, e que Ele não o abandonou no meio do sofrimento.

3) As características do sofrimento versus as características de Deus  – Jeremias

Jeremias foi preso e açoitado por profetizar o que Deus havia lhe ordenado (Jeremias 20). E pior, a mando de um sacerdote desonesto, que profetizava mentiras (Jeremias 20, 6). Jeremias é largado preso a um tronco no templo, sendo motivo de zombaria e vergonha. Ele se dirige ao Senhor, lembrando-o de que havia feito o que Ele pedira, mas ao mesmo tempo amaldiçoando o dia em que nascera, chegando a perguntar a Deus: “Por que no útero não me matou?”.

Mas é o mesmo Jeremias que afirma: “Tu porém, Senhor, estás comigo como lutador invencível.” (Jr 20, 11)

O sofrimento humano pode parecer injusto aos nossos olhos, no entanto não é a característica dele o elemento de importância. o sofrimento pode parecer injusto, inadequado, desproporcional, grande, não importa. As características de Deus e o que Ele é no meio do sofrimento são aquilo para o qual a atenção deve se voltar no final das contas. Se confrotarmos as características do sofrimento com as características de Deus, encontraremos descanso em quem Deus é. Podemos fazer o exercício: O sofrimento é injusto, Deus é justo (Romanos 1, 17); o sofrimento é grande demais, Deus é ainda maior (Romanos 8, 38); o sofrimento é incapacitante, Deus nos alivia (Mateus 11, 28); a dor é incompreensível para os outros, Deus é o sumo sacerdote capaz de se compadecer das nossas dores ( Hebreus 4, 15).

4) Amigos e Vulnerabilidade – Jó

O livro de Jó é, talvez, a história mais trágica de toda a bíblia. Em um curto espaço de tempo, Jó perde todos os filhos e tudo o que possuía, sendo deixado com o corpo coberto de lepra da planta dos pés ao topo da cabeça (Jó 2, 7). Até de sua mulher, Jó é tentado a amaldiçoar a Deus e pedir a morte. Mas ao contrário disso, Jó proclama:

“Nu saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o Senhor o deu, e o Senhor o tomou: bendito seja o nome do Senhor.” (1, 21)

 

Uma lição preciosa de Jó para os que sofrem é a vulnerabilidade com pessoas que nos conhecem e nos amam. A bíblia diz que três amigos de Jó, sabendo do que havia acontecido a ele, vêm de longe para visitá-lo, choram com ele e passam sete dias sentados em volta dele sem dizer uma palavra, apenas estando lá para quando Jó precisasse e quisesse desabafar. É só depois de sete dias que Jó reúne forças para dizer alguma coisa, e de sua boca saem lamentos, tão profundos, que ele confessa aos amigos que preferiria ter sido morto ainda antes de nascer (2, 11 e 3-4). Os amigos de Jó o relembra de coisas fundamentais, que o sofrimento o fazia esquecer:
  • Deus ainda é digno de confiança e esperança (4, 6)
  • Deus não se esquece do justo (4, 7)
  • Deus sabe mais do que o homem (4, 17)
  • Deus corrige os que ama (5, 17)
  • Deus protege seus filhos na tribulação (5, 19)
  • Deus salva (5, 21)
Cerque-se de pessoas que o conhecem e o amam. No hábito involuntário de se isolar no meio do sofrimento, force-se a buscar a companhia de pessoas que podem ouví-lo(a). A vulnerabilidade, o falar sobre o que comprime peito de dor, ajuda a dar nome a uma dor que parece inominável.  Jó nos ensina que os amigos não são meramente convenientes, eles são uma necessidsde grave.
Considerações

Digo mais uma vez: esteja você carregando hoje o fardo pesado da depressão, ou alguém próximo esteja, não hesite em procurar ajuda profissional. Deus criou os médicos por algum motivo, e devemos procurá-los quando precisamos. Independente de poder ter acesso a ajuda profissional, a fé em Cristo ajudou e tem ajudado ao longo dos séculos almas esmagadas pelo peso do sofrimento. Que todas as verdades declaradas acima possam iluminar os cantos escuros de nossas almas, que elas possam jogar luz nas dores mais agudas e irreparáveis, e trazer esperança e paz, ainda que no meio de crises que parecem que nunca vão passar.

“Quanto a nós, temos um sumo sacerdote eminente, que atravessou os céus: Jesus, o filho de Deus. Por isso, permaneçamos firmes na profissão da fé. De fato, não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer de nossas fraquezas, pois ele mesmo foi provado em tudo.” (Hebreus 4, 14-15)

1. https://www.nimh.nih.gov/health/topics/depression/index.shtml


Um comentário sobre “Por que estás abatida, ó minh’alma? – Uma conversa honesta sobre depressão

  1. Seja sob a designação fé ou pensamento positivo, é fato que a mente responde por muitos efeitos, benéficos ou deletérios, que se irradiam pelo corpo inteiro.”A SUA fé te curou”, dizia enfático o Homem-Deus aos enfermos que se abraçavam a esperança.

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