Breve história das calças no vestuário feminino

Entre todos os artigos que li até hoje em blogs que advogam que calças foram criadas como uma peça exclusivamente masculina, nenhum deles fornece evidências históricas que suportem essa afirmação. Por causa disso, julgo necessário que alguém faça esse trabalho de investigar e apresentar as evidências existentes.

Aqui, darei ênfase à origem histórica das calças e quando uma noção de separação entre vestes masculina e feminina começou a ser delineada. Abordarei as perguntas “quem inventou as calças?”, “quem usou calças primeiro? O homem ou a mulher?”, “quando o conceito de calças como uma peça masculina surgiu?”.

Para a surpresa de muitos, não existe evidência antes do século XIV de que calças foram criadas para, ou eram associadas, exclusivamente ao sexo masculino. Além de não haver também, antes disso, diferenças claras entres vestimentas de homem e de mulher na Europa central. O vestuário comum de homens e mulheres, até então, incluía peças com cortes soltos formando uma única peça a cobrir o corpo: túnicas, togas e estolas [1] [3].

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vestuário da primeira metade do século XIV é representado no Codex Manesse. No painel inferior, o homem está vestido como um peregrino, com um cajado, uma espécie de bolsa no ombro e chápeu. A mulher representada usa uma túnica e capa azul. Imagem: Wikimedia Commons

Na China, ambos, homem e mulher, usavam calças. No Império Otomano mulheres usavam calças. No Paquistão, mulheres não apenas usavam calças, como essa peça ainda é parte de uma vestimenta tradicional do lugar, o Salwar Khameez. É apenas na Europa Central, a partir da segunda metade do século XIV, que calças são associadas ao sexo masculino de forma exclusiva [1].

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Origem e uso das calças ao longo da antiguidade e idade média

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Par de calças mais antigo registrado, datado de 3000 anos, pertenceu a uma tribo nômade da Ásia central. Imagem: Science News

A sociedade mais antiga na qual achados arqueológicos indicam a presença de calças data de aproximadamente 3000 anos atrás. Isto é, ainda antes de Cristo. Trata-se de algumas tribos nômades da Ásia Central, de povos conhecidos como “nômades das estepes” por viverem em constante deslocamento pela região dos prados desde o leste da Europa ao Cazaquistão. Achados arqueológicos sugerem que tanto homens quanto mulheres  utilizavam calças naquele contexto cultural [2] [3].

Os nômades eurasianos Citas, juntamente com os Aquemênidos e os Persas Selêucidas foram os primeiros a usar calças […] [4]

Heródotus, um historiador grego da idade antiga, descreve mulheres dessas tribos, além das amazonas da mitologia grega, como “vestidas com calças” [2]. Em um vaso de alabastro da Grécia antiga, encontrado em escavações e datado de 470 antes de Cristo,  uma jovem mulher é representada com calças compridas.

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Amazona de calças e carregando um escudo e aljava. Vaso de alabastro da Grécia Antiga, 470 antes de Cristo, Museu Britânico, Londres. Imagem: Wikimedia Commons

Por volta do século V antes de Cristo, as calças começaram a aparecer também entre os persas (habitantes da região onde fica o atual Irã) e utilizadas tanto por homens quanto mulheres [2]. No livro Ancient Egyptian, Assyrian and Persian Costumes and Decorations (Trajes e decorações dos Egípcios, Assírios e Persas antigos, em tradução livre), Mary G. Houston escreve:

Um fato interessante é que temos a representação de uma rainha de um reinado persa (550-330 a.C.) vestida com calças, o que, vale ser remarcado, ainda é usado por mulheres daquela região nos dias atuais.  [7]  [pág. 79]

Nos séculos seguintes, calças se tornaram artigos comuns entre povos nas regiões do entorno da Grécia e do Império Romano. Há relatos da presença dessas peças, na antiguidade, entre os Persas, Medos, Partos, Frígios, Sármatas, Dácios, Teutões, Bretões, Gauleses e Celtas [4].

O uso de calças no Império Romano e na Grécia ainda foi desprezado por alguns séculos, dada a sua origem entre povos considerados Bárbaros, inimigos desses dois povos. Foi no reinado de Alexandre o Grande, Rei grego, que as calças começaram a parecer uma opção razoável para a cavalaria grega [1].

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Estátua do imperador Tibério mostrando a tradicional toga romana. Século I depois de Cristo. Imagem: Wikipedia
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Estátua de Livia Drusilla, esposa do imperador Augusto e mãe de Tibério, usando uma estola. Século I antes de Cristo. Imagem: Wikipedia

No Império Romano, apesar do profunda rejeição pela forma de se vestir dos bárbaros, no século I antes de Cristo os romanos conquistam a Bretanha (atual Reino Unido), ocupada por nômades celtas. A tribo dos celtas já possuía e utilizava calças, a fim de proteger-se do frio. De acordo com Dolores Monet, no artigo A history of trousers and pants in the western culture (Uma história das calças na cultura ocidental, em tradução livre), os romanos em contato com os celtas acabaram por incorporar as calças nessa época:

Com o tempo e a mistura das culturas, soldados romanos começaram a utilizar uma espécie de calça chamada “braccae”, que era mais apropriada para o clima frio da região do que suas tradicionais togas (veste tradicional romana). Braccae é uma palavra de origem latina que significa “calções”, um tipo de calça que ia até a altura do joelho, sendo, contudo, ajustável e possível de se utilizar na altura do calcanhar [2].

Após a queda do Império Romano, no século V, as túnicas permaneceram como as vestimentas básicas dos europeus até cerca de 1300. A segunda metade do século XIV é a época, de acordo com historiadores, em que diferenças no modo de se vestir começou a se tornar clara na Europa, considerando que, até essa época, as vestes comuns, para homens e mulheres, eram as túnicas, togas e estolas, peças com cortes semelhantes entre si [1].

O motivo razoável para a o início da separação entre roupas exclusivas de homens e mulheres parece ser a mudança no estilo das armaduras medievais europeias, exigindo uma completa alteração nos estilos das braccaes (calções), que agora assumem um estilo ajustado e comprimento até os pés. De acordo com Laurence Benaim, em seu livro Pants a History Afoot (Calças, uma história em movimento – em tradução livre):

Uma mudança no estilo de armaduras colocou o homem em calças justas. Este estilo militar adaptado das braccaes desapareceu em pouco tempo na Itália, sendo transformado em elegantes e luxuosas leggings, pela primeira vez. Uma vez que esse costume se espalhou, o vestuário do homem e mulher europeus começou a divergir dramaticamente. Pela primeira vez os robes e vestidos longos se tornaram associados à feminilidade. [1] [pág. 20]

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Pietro Perugino e o “Bottega de 1473”: Nicho de San Bernardino, Histórias de São Bernardino. Imagem: Wikimedia Commons

Não há evidência sobre o uso dessas peças haver se estendido a mulheres. É intuitivo pensar que isso não ocorreu, visto que na Europa medieval apenas homens se alistavam oficialmente e, portanto, eram os únicos a precisarem fazer uso delas. É só a partir daí que as evidências indicam o início de uma separação clara entre vestimentas de uso exclusivo de homens e mulheres, com calças sendo associadas a masculinidade e robes/vestidos associados a feminilidade [1].

Ainda de acordo com Laurence Benaim, no livro Calças, uma história em movimento (tradução livre), um fenômeno importante começou a se delinear nesse período na Europa Central: roupas começam a ser utilizadas como forma de evidenciar as características sexuais do homem e da mulher:

O corpo feminino era bem contornado por peças que deixavam os ombros e o pescoço à mostra. O colo e a barriga, símbolos de feminilidade e maternidade, eram acentuados. Vestidos eram muito longos, ajustados na altura do busto, apertados na cintura e com decotes cavados. [1] [pág. 18]

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Vestido tradicional do século XV. Imagem: Pinterest

No artigo The Fashionable Sex, publicado em 1992 por Lois Banner, o autor descreve a percepção de masculinidade, representada pelas calças, que começou a se desenvolver na Europa apenas no século XIV:

No homem, a ênfase na masculinidade se dava pela exposição do formato dos genitais, se tornando comum no século XIV. A braguilha, formando uma espécie de bainha que envolvia o órgão sexual masculino, foi desenvolvida nesse período. Pernas esguias e longas, cobertas com calças justas continuaram em voga nesse período até a metade do século XIX, quando calças longas e mais soltas finalmente se tornaram predominantes e permanecem até os dias atuais. [8]

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Braguilha com gibão curto, 1533, Prado. Imagem: Wikipedia

Ainda na idade média e parte da idade moderna na Europa, as roupas eram regulados por normas sociais, chegando a existir leis que estabeleciam, entre outras coisas, o padrão de vestimenta. De acordo com a profa. Paige Hanson, num ensaio sobre os códigos de vestimenta nas Leis Suntuárias do período renascentista, as vestes para mulheres eram bem definidas:

As mulheres utilizavam vestidos compostos por um corpete justo e uma saia larga que se estendia até os tornozelos. Vestidos com golas cortadas para expor grande parte do colo eram aceitáveis e elegantes. As roupas das classes mais elevadas eram pesadas e limitavam o movimento das usuárias. Mulheres de classes mais baixas utilizavam estilos muito menos restritivos, tanto pela liberdade de movimento quanto porque não possuíam empregadas para ajudá-las a se vestir. [6]

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Exemplos de vestes tradicionais femininas na história moderna e contemporânea

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No Vietnam, uma vestimenta tradicional chamada “Áo Dài” é parte da cultura há pelo menos 3 séculos. A veste é composta por uma espécie de camisa longa, com fendas em ambos os lados até a altura da cintura e um par de calças. A história local conta que a veste começou a ser utilizada a partir de um decreto do imperador, em 1744:

A história do Áo Dài vietnamita começa em 1744, quando o senhor do sul, Lord Nguyen Phuc Khoat, decretou o uso dessa vestimenta em seu reino. A veste, baseada no estilo do povo Cham, os habitantes originais daquela terra, era uma forma de mostrar respeito e receber apoio do povo indígena. No início, o Áo Dài apresentava formas soltas e era usado por ambos os sexos. [5]

Algo interessante é uma aparição de Nossa Senhora no Vietnam, no final do século XVIII, quando o então imperador decretou restrições ao Catolicismo no país, abrindo uma violenta perseguição contra os católicos. Acuados, eles fugiam, buscando refúgio nas florestas de La Vang, região onde a aparição foi inicialmente relatada. Nossa Senhora de La Vang foi o título dado a Virgem Maria em homenagem a esse evento, em que ela apareceu aos fiéis trajando o ao dai. É assim que suas imagens sacras são representadas até hoje, como o exemplo abaixo, presente na capela dedicada a Nossa Senhora de La Vang no local de suas aparições, no Vietnam.

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Estátua de Nossa Senhora de La Vang, vestida com o tradicional Ao Dai, Catedral de Phat Diem, Vietnam. Imagem: Wikipedia

O “Salwar Khameez” é outro exemplo de uma veste tradicional feminina em outra cultura, a paquistanesa. A vestimenta é formada por uma camisa longa ou túnica e um par de calças.

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Seria  possível a partir de evidências históricas afirmar que calças sempre pertenceram exclusivamente ao vestuário masculino?

Do ponto de vista histórico, não é possível concluir que calças foram criadas como artigos exclusivos do vestuário masculino, menos ainda de que só foram incorporadas ao guarda-roupa feminino na idade moderna. Como demonstrado, os primeiros registros dessa peça remontam a tribos da antiguidade como uma peça utilizada por ambos os sexos, além de, em culturas orientais, se tratar de peça tradicional, até hoje, no vestuário de ambos os sexos.

O uso exclusivo de túnicas/vestidos por indivíduos do sexo feminino da Europa Central durante a baixa e alta idade média, e parte da idade moderna, não estabelece nenhuma relação causal com uma origem das calças como uma peça do vestuário masculino, senão reflete as convenções determinadas por costumes, regras sociais e até leis daqueles momentos históricos e daquele lugar.

REFERÊNCIAS

  1. BENAIM, L. Pants a history afoot. 1a Ed. Vilo Publishing, 2001.
  2. MONET, D. A history of trousers and pants in western culture. 2019. Disponível em: https://bellatory.com/fashion-industry/A-History-of-Trousers-and-Pants-in-Western-Culture   Acesso em: 20/02/2020.
  3. Pants on women – The historical Origin of Pants and who made pants a male garment?. Disponível em: http://studyholiness.com/pants_on_women_3.html Acesso em: 24/02/2020.
  4. YATES, J. Bracae.  Disponível em: http://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/secondary/SMIGRA*/Bracae.html  Acesso em: 01/03/2020.
  5. History of the Vietnamese costume ‘ao dai’. Julho, 2016. Disponível em: https://wildtussah.com/history-vietnamese-costume-ao-dai/  Acesso em:01/03/2020.
  6. HANSON, P. L. Renaissance clothing and sumptuary laws. 2010. Disponível em: http://www-personal.umd.umich.edu/~cfinlay/sumptuary.html Acesso em: 29/02/2020.
  7. HOUSTON, M. G. Ancient Egyptian, Assyrian and Persian Costumes and Decorations. 1a Ed. London. A.&C.Black. 1920.
  8. BANNER, L. The fashionable sex, 1100-1600. History Today. V. 42, 4. 1992.


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