A idolatria do casamento

Quando eu era solteira, entre o meio e o fim da adolescência, comecei a me envolver com apostolados online para mulheres. Muito nova e imatura, eu acreditava de forma indiscutível que servir a Deus e ter o “aval” para falar alguma coisa sobre feminilidade só aconteceria quando eu me casasse e tivesse filhos.

Eu não havia tirado essa da minha própria cabeça, eu consumia muito conteúdo sugerindo isso em textos intermináveis de redes sociais, ilustrados com aquelas imagens lindas de mulheres da década de cinquenta com aparências impecáveis, maridos galantes e cavalheiros, filhos bem comportados e bem vestidos e casas com decorações clássicas.

“É isso, eu preciso me casar e ter filhos pra entrar nesse clube seleto de mulheres com autoridade para falar sobre feminilidade.”

Eu não penso nisso hoje com dor, mas com preocupação, sabendo que tantas meninas passarão por esse mesmo caminho duro até perceberem que estão sendo profundamente manipuladas. Muitas só percebem quando muito estrago (espiritual, psicológico e emocional) já foi feito. Mas até nisso consigo perceber a ordem natural da vida: muitas coisas só se resolvem com o tempo e maturidade, infelizmente precisamos sofrer consequências ruins de escolhas, embora inconscientes, também ruins.

Se você não é casada e nem tem filhos, ou se você hoje, por algum motivo, está em qualquer posição que não seja o “modelo” de esposa e mãe da década de cinquenta pregado principalmente em meios cristãos online, saiba que o seu espaço entre mulheres católicas nunca deixou de ser seu só porque algumas pessoas o dominaram e o transformaram num clubinho privado. Cristo garantiu quando aceitou morrer, mesmo inocente, o espaço para você entre as filhas de Deus. Ninguém pode te conceder mais ou menos espaço, te etiquetar de mais ou menos católica, definir no lugar de Deus o que é e como viver uma verdadeira feminilidade. A bíblia está preenchida, do início ao fim, de histórias sobre mulheres que agradaram a Deus sendo boas filhas, rainhas, juízas, guerreiras, trabalhadoras do campo, viúvas… Deus nunca criou uma caixa para nos colocar dentro, nós mesmas é quem criamos, ou aceitamos que os outros nos forcem a entrar na caixa que eles criaram .

Eu entendo como todo esse alvoroço em torno do assunto “como ser uma mulher católica” (como se existisse um protocolo pronto com as medidas exatas dos ingredientes que você precisa usar para ser uma) é poderoso para mexer conosco quando estamos em uma situação de vulnerabilidade principalmente emocional, e moças na transição entre a adolescência e a vida adulta são um prato cheio para serem predadas. Não é coincidência o fato de que o grande público que consome esse tipo de conteúdo é o de moças adolescentes e jovens adultas. Nós queremos ser aceitas, validadas, esticamos nossos braços desesperadamente à procura de alguém que diga que estamos fazendo um “bom trabalho” em sermos a mulher idealizada dos perfis de redes sociais sobre feminilidade.

Hoje eu estou do lado de cá do casamento, à espera de quando Deus desejar enviar mais almas à Terra por meio de mim e do meu esposo. Tendo eu, um dia, estado do lado que você talvez esteja agora eu preciso dizer a você, moça solteira, ansiando para se casar por causa de toda a ideia da mulher ideal dos anos cinquenta: não existe nenhum exemplo bíblico de mulher que tenha sido menos mulher ou tenha tido a feminilidade bíblica em menor porção por não ser casada.

O que penso ser essencial compreender, e que não temos compreendido, é o fato de que a posição e os deveres de mulheres solteiras e casadas são diferentes, mas ambos importantes. O status civil não é uma premissa para o serviço ao Reino. São Paulo escreve:

Há diferença entre a mulher casada e a virgem. A solteira cuida das coisas do Senhor para ser santa, tanto no corpo como no espírito; porém, a casada cuida das coisas do mundo, em como há de agradar ao marido. (1Cor 7, 34)

Veja, são Paulo não diz com isso que a mulher casada está deixando de se esforçar para ser santa, ele meramente descreve o fato óbvio de que quando se é solteira, sem as obrigações de estado de uma pessoa casada, temos nosso tempo mais livre e flexível. Sem outra(s) pessoa(s) para obrigatoriamente cuidar, temos a liberdade para direcionar esse tempo livre para nossa vida de oração, para servir, para colocar-nos integralmente à disposição de Deus sem divisões e distrações. E isso não é pejorativo, é uma constatação óbvia, ele não a inventa, apenas a confirma.

Na época em que eu era solteira, existia mais espaço e tempo para servir à minha paróquia e, de fato, na minha adolescência eu servi na catequese de crianças e na catequese de preparação para o Sacramento da Confirmação; ajudava a organizar eventos; fazia trabalhos manuais e até ajudava a limpar a igreja quando precisava. Era um tempo de muita agitação emocional, pois naturalmente, entrando na fase fértil da vida, nossos mecanismos biológicos influenciam o nosso humor, o relógio da natureza mostra que chegou a hora da reprodução. Nosso corpo físico está trabalhando numa linguagem biológica que entende que atingimos a maturidade sexual e nos empurra para ela. Esses impulsos fortes são algo novo para nós quando passamos por eles pela primeira vez, e por isso somos facilmente influenciadas, porque é uma fase confusa. Enquanto estamos passando por ela, ela não parece fazer sentido, eu diria até que a sentimos como um volume morto, um tempo de vácuo entre a inocência e a hora de casar, quando na verdade é um tempo precioso no qual Deus está trabalhando no nosso caráter.

Eu agradeço por ter mantido diários espirituais durante parte dessa fase da minha vida, porque por meio deles eu consigo ver hoje, com clareza, que momentos que, para mim, eram sem significado e inúteis, neles Deus estava trabalhando em coisas no meu interior que eu não fazia ideia do que eram, mas que mais tarde se revelaram peças fundamentais para a pessoa na qual eu precisava me tornar.

Me casar foi uma decisão que mudou a minha vida para melhor em muitos aspectos, mas olhando para trás eu vejo que eu poderia ter vivido o tempo de solteira melhor, e por isso escrevo, para que minhas amigas solteiras comecem a pensar nisso, e se esforcem para viver esse tempo de forma mais positiva, não como um mero tempo sem sentido de espera para se casar, mas com toda a profundidade e cuidado específicos dele. O casamento não é um prêmio e nem um fim em si mesmo, por mais que a imagem da donzela dos anos cinquenta reproduzida todos os dias nas redes sociais tenha te ensinado que ele é a finalidade da sua existência e a única forma de feminilidade.

C.S. Lewis escreve que quando olhamos para a nossa vida no agora, não conseguimos ver nenhuma mudança acontecendo, mas ao progredir na estrada que caminhamos, conseguimos olhar para trás e perceber que já não somos quem costumávamos ser. Muitas de nós não vemos o trabalho vital que Deus tem feito em nós enquanto ainda estamos solteiras e, estimuladas pelo estereótipo de feminilidade que vemos na internet, começamos a tentar desesperadamente pular para o próximo capítulo. Mas uma história com um capítulo pulado não vai fazer sentido lá no fim.

Eu pensei, por exemplo, durante alguns anos, que um episódio de violência urbana que sofri um dia, ao sair de casa para ir à igreja era sem sentido, que não havia propósito em nada daquilo. Como consequência do trauma daquele episódio, eu desenvolvi um transtorno de ansiedade severo, que me flagela até hoje. Quando leio os meus escritos da época em que tudo aconteceu, hoje consigo entender que, por meio disso, Deus me tornou uma mulher mais atenta aos outros, pois comecei a procurar por pessoas que passavam pelo mesmo problema que eu, e comecei a me interessar mais pelo sofrimento dos outros e por ajudar os outros. E, acredite, isso tem sido totalmente útil hoje na minha vida, pois o casamento é um constante perceber e importar-se com as necessidades do outro. Quero, com esse breve exemplo (poderia dar inúmeros outros) te dizer que Deus está fazendo algo vital nos momentos em que você menos acha que algo para o seu benefício está acontecendo. Todas as coisas cooperam para o nosso bem.

Muitos parecem ter uma necessidade grande de dominar e controlar outras pessoas à volta, dominar coisas que nunca estiveram sob seu domínio e a partir disso começar a definir se os outros estão seguindo o curso certo delas ou não, e o que tenho percebido é que essa tendência não deixa de existir entre pessoas na Igreja, pelo contrário, parece ser pior em alguns meios de dentro dela. Como conversava com um amigo há um tempo, esse é um problema anterior à Igreja, e não causado por ela, pois quem normalmente é controlador e dominador o é estando na Igreja ou não.

O que podemos fazer, no meio de tudo isso, então, é nos proteger emocionalmente, espiritualmente e psicologicamente do que eu chamo de idolatria do casamento, uma supervalorização que é feita das casadas como a grande autoridade em qualquer assunto relacionado à mulher, e do casamento como um fim em si mesmo, como a finalidade das nossas vidas, algo que vai resolver todos os nossos problemas quando chegarmos lá. A partir da minha experiência e dos danos ao longo do tempo que permiti que essas ideias causassem em mim, penso que nos protegemos delas de várias formas diferentes, começando por cortar nossas relações e contato com conteúdos que promovem tudo isso, que nos estimulam a nos colocar num lugar de inferioridade por sermos solteiras, que nos ensina que o casamento será o remédio para a nossa “irrelevância”. Em seguida, penso que vem o trabalho mais importante, que é o conhecimento de Deus e o auto-conhecimento. Conhecer a Deus, saber quem Deus é, de fato, sem intermédios, sem alguém dizendo a você quem Ele é, mas aprendendo dele mesmo, da sua Revelação Divina, dos diálogos tu-a-tu na oração, nos leva a conhecer também quem nós, de fato, somos. No Cristianismo, a resposta para a pergunta “QUEM eu sou?” só pode ser respondida a partir de Quem Deus é. Se não sabemos Quem Deus é, se Ele é para nós uma figura estranha, alguém sobre quem falamos mas não conhecemos, nós nunca conheceremos também quem nós somos, e viveremos vulneráveis ao que os outros dizem que somos.

Como um exercício de conhecimento, gostaria de sugerir que você leia a história das seguintes mulheres bíblicas: Débora, Rute, Judith e Ester, e comece a pensar no tipo de proceder feminino que parece agradar tanto a Deus na bíblia e fazê-lo ter prazer em suas filhas.

Existe, de fato, uma feminilidade bíblica, e não vamos encontrá-la em outro lugar que não seja a bíblia. Parece mais fácil e rápido esperar que pessoas que nem conhecemos mastiguem tudo isso e vomitem para nós, mas como estamos vendo, a comida mastigada não terá o mesmo sabor, não é o mesmo alimento nutritivo que vem direto da fonte. O valor da mulher, que não depende do seu status civil, só pode ser estabelecido por Quem a criou.


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